Gregório Bezerra, presente!

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” Com o golpe militar de 1º de abril de 1964, fui preso quando procurava mobilizar a massa camponesa pernambucana para defender a permanência, no governo, do Dr. Miguel Arraes de Alencar e resistir ao movimento insurrecional. Estava em Palmares e fui levado ao Parque de Moto Mecanização, em Casa Forte e espancado, pessoalmente, pelo coronel do Exército Darcy Ursmar Villocq, a cano de ferro, no que este ajudado por três ou quatro sargentos. Fui, também, amarrado e arrastado pelo pescoço, pelas ruas do Recife, num espetáculo de puro nazismo que horrorizou a toda gente. Hoje me encontro recolhido à Casa de Detenção do Recife, onde escrevo estas notas, aguardando o meu julgamento, pelo Conselho de Justiça Militar da 7ª Região. Estou tranquilo, porque ao meu lado está todo o povo brasileiro, o proletariado, as massas camponesas, os intelectuais. Não temo o futuro. Espero o dia em que serei libertado, que acredito próximo, se o povo souber unir-se para derrotar a ditadura que aí está. Então estarei outra vez, nas ruas, ao lado do meu povo, para lutar pela libertação nacional, do jugo de nossa Pátria pelos imperialistas norte-americanos, pelo progresso do Brasil, contra o atraso e pelo bem-estar de todo o povo brasileiro.”

” Esta é a minha única aspiração.”

 

GREGÓRIO BEZERRA, “Eu, Gregório Bezerra, Acuso!”, 1967.

O dia da mentira.

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O senhor não tem autoridade para me depor sou escolhido pelo povo. Não preciso de suas garantias, sou o governador de Pernambuco e assumirei o governo de Pernambuco esteja eu onde estiver“.

Arraes fechou a porta do palácio e deixou o coronel a ver navios.

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Há exatos 52 anos, o então governador de Pernambuco Miguel Arraes, era destituído do comando do governo do estado em virtude do golpe de estado de 1964.

O Palácio do Campo das Princesas chegou a ficar sob a mira de canhões estacionados no Cais do Apolo, no Recife Antigo, e na Rua da Aurora, no Centro.

No dia 31 de março, Arraes conversou com o presidente João Goulart, que relatou as dificuldades encontradas pelo governo federal, além da situação política em Minas Gerais. No mesmo dia, o governador que seria deposto enviou uma nota oficial aos jornais do estado garantido que a situação no estado estava “tranquila”. Arraes, no texto, também defendia a democracia e a legalidade. O discurso, porém, não estava de acordo com a realidade. O golpe já era quase um fato consumado.

Miguel Arraes também escreveu e enviou um manifesto aos demais governadores da região Nordeste. No documento, ele pedia que todos resistissem à quebra de legalidade e que apoiassem o presidente deposto João Goulart. O apelo não encontrou ressonância. Na noite do dia 31 de março, como o golpe de estado era um fato iminente, o governador decidiu não dormir no palácio.

O dia 1º de abril iniciou em conversas com assessores e sua mulher, a então primeira-dama Magdalena Arraes, que tentou manter a rotina dos filhos, inclusive, indo normalmente à escola. Os tanques do Exército já apontavam para o Palácio do Campo das Princesas. A primeira-dama começou a arrumar as malas das crianças para que elas fossem passar alguns dias na casa de uma das avós. Os filhos do casal foram orientados a não voltar ao palácio depois da aula.

Uma passeata foi organizada no Recife por estudantes em defesa da legalidade, mas o movimento foi sufocado pelo Exército. Os estudantes Ivan Rocha e Jonas Albuquerque foram atingidos à bala e morreram. Três pessoas ficaram feridas.

À noite, os militares voltam ao palácio para prender o governador. Antes da ordem de prisão levada pelo coronel Dutra de Castilho, Miguel Arraes gravou uma mensagem aos pernambucanos, que deveria ser distribuída em rádios do estado. A mensagem não pôde ser compartilha porque as rádios já estavam ocupadas pelos militares.

“O mal trazido ao Brasil pela ditadura foi a falta de informação da população, a manipulação do ensino, aquilo que foi jogado na cabeça das pessoas. Além disso, o silêncio sobre as lutas do povo, que não eram ensinadas aos jovens. A geração que nasceu por volta do ano de 64 não entende a formação de quem se formou antes, daqueles que desde muito cedo foram ensinados conhecendo os problemas brasileiros, os problemas da nossa população. Acho que esse é o prejuízo principal, e acho que a arma principal que está sendo utilizada – disse isso há muito tempo – para substituir as metralhadoras dos militares é a câmera da televisão”. MIGUEL ARRAES, 2004.

(Textos organizados a partir da matéria publicada no Diário de Pernambuco, para os 50
anos do golpe, por Andrea Pinheiro e Tercio Amaral)