O dia da mentira.

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O senhor não tem autoridade para me depor sou escolhido pelo povo. Não preciso de suas garantias, sou o governador de Pernambuco e assumirei o governo de Pernambuco esteja eu onde estiver“.

Arraes fechou a porta do palácio e deixou o coronel a ver navios.

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Há exatos 52 anos, o então governador de Pernambuco Miguel Arraes, era destituído do comando do governo do estado em virtude do golpe de estado de 1964.

O Palácio do Campo das Princesas chegou a ficar sob a mira de canhões estacionados no Cais do Apolo, no Recife Antigo, e na Rua da Aurora, no Centro.

No dia 31 de março, Arraes conversou com o presidente João Goulart, que relatou as dificuldades encontradas pelo governo federal, além da situação política em Minas Gerais. No mesmo dia, o governador que seria deposto enviou uma nota oficial aos jornais do estado garantido que a situação no estado estava “tranquila”. Arraes, no texto, também defendia a democracia e a legalidade. O discurso, porém, não estava de acordo com a realidade. O golpe já era quase um fato consumado.

Miguel Arraes também escreveu e enviou um manifesto aos demais governadores da região Nordeste. No documento, ele pedia que todos resistissem à quebra de legalidade e que apoiassem o presidente deposto João Goulart. O apelo não encontrou ressonância. Na noite do dia 31 de março, como o golpe de estado era um fato iminente, o governador decidiu não dormir no palácio.

O dia 1º de abril iniciou em conversas com assessores e sua mulher, a então primeira-dama Magdalena Arraes, que tentou manter a rotina dos filhos, inclusive, indo normalmente à escola. Os tanques do Exército já apontavam para o Palácio do Campo das Princesas. A primeira-dama começou a arrumar as malas das crianças para que elas fossem passar alguns dias na casa de uma das avós. Os filhos do casal foram orientados a não voltar ao palácio depois da aula.

Uma passeata foi organizada no Recife por estudantes em defesa da legalidade, mas o movimento foi sufocado pelo Exército. Os estudantes Ivan Rocha e Jonas Albuquerque foram atingidos à bala e morreram. Três pessoas ficaram feridas.

À noite, os militares voltam ao palácio para prender o governador. Antes da ordem de prisão levada pelo coronel Dutra de Castilho, Miguel Arraes gravou uma mensagem aos pernambucanos, que deveria ser distribuída em rádios do estado. A mensagem não pôde ser compartilha porque as rádios já estavam ocupadas pelos militares.

“O mal trazido ao Brasil pela ditadura foi a falta de informação da população, a manipulação do ensino, aquilo que foi jogado na cabeça das pessoas. Além disso, o silêncio sobre as lutas do povo, que não eram ensinadas aos jovens. A geração que nasceu por volta do ano de 64 não entende a formação de quem se formou antes, daqueles que desde muito cedo foram ensinados conhecendo os problemas brasileiros, os problemas da nossa população. Acho que esse é o prejuízo principal, e acho que a arma principal que está sendo utilizada – disse isso há muito tempo – para substituir as metralhadoras dos militares é a câmera da televisão”. MIGUEL ARRAES, 2004.

(Textos organizados a partir da matéria publicada no Diário de Pernambuco, para os 50
anos do golpe, por Andrea Pinheiro e Tercio Amaral)

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