Paulo Freire

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Em junho de 1964, Paulo Freire é preso no Recife. Seu interrogatório dura quatro dias.

Oficial – Qual é seu nome?

P. Freire – Paulo Reglus Neves Freire, filho de Joaquim Temístocles Freire e de Edeltrudes Neves Freire, nascido em Recife em 19 de setembro de 1921.

Oficial – Sabe o que está acontecendo, professor? Sabe! O senhor sabe de tudo… estamos salvando o país de uma crise, defendendo a família tradicional, a propriedade privada e o trabalho que o capitalismo oferece aos homens de bem, ou seja, estamos arrumando a bagunça que vocês provocaram com esses círculos de cultura por aí espalhados. Professor, entenda de uma vez por todas, o senhor anda questionando muita coisa que não deve ser mexida, atiçada… as coisas na vida devem mudar naturalmente, ou, então, devemos deixar apenas Deus mudar, já que ele é o criador de tudo… Ou o senhor anda querendo ser Deus para mudar o mundo? Espero que não, porque como o senhor mesmo diz lá fora, também afirmamos aqui: estamos nesta cela para fazê-lo ganhar consciência! Estamos “dialogando” para nos entender. O senhor está preso! Queremos registrar o seu depoimento oficial e acredite, teremos todo o tempo do mundo…Não pretende mudar suas convicções?

Paulo Freire – Não! Vou me defender, é um direito.

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A alça na bolsa

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O carcereiro Artur Falcão, da Delegacia de Segurança Social, levou Anatália para o 2º banheiro, por volta das 17h20 do dia 22 de janeiro de 1973. A partir desse momento, a história que ele conta é a versão oficial. Passados 20 minutos, tempo que ele considerou “demasiado longo para um simples banho”, bateu na porta várias vezes. Sem resposta, ele resolveu “por sua própria conta, arrombar a porta, momento em que deparou-se com a vítima no solo, com a alça envolvendo o pescoço”. Alarmado, segundo ele, chamou o delegado Amauri Brasil, que “no intuito de prestar os socorros de urgência determinou fosse o corpo removido para a sala de Secção de Comissariado”. A causa da morte teria sido então “asfixia por enforcamento”.

Este depoimento compõe o laudo de exame do local de morte. Estranhamente, o policial Artur Falcão não relata que o corpo de Anatália Melo Alves trazia queimaduras de 1º e 2º graus na face anterior dos terços superiores de ambas as coxas, na região pubiana e na região hipogástica. Ele teria colocado fogo nas próprias vestes, além de ter se enforcado com a alça de sua bolsa, pendurando-se em um cano de torneira. O policial Artur Falcão não o odor provocado pelas queimaduras. Anatália teria se queimado gravemente sem um gemido. O policial Artur Falcão também não se refere à fumaça.

Os peritos encontraram Anatália na cama de campanha. A versão oficial não informa se ela já estava morta ao ser removida ou se morreu naquele local. Por que estava no solo? Pelas fotos e laudos encontrados nos arquivos do Dops/PE, a alça não se rompeu. Por que também seu braço esquerdo está distendido? É espantoso que se possa ter deixado com uma pessoa detida uma alça de bolsa de 1,09m de comprimento. Isso contraria os procedimentos habituais: pessoas detidas ou presas estão proibidas de portar objetos que possam servir para atentar contra a própria vida ou a de terceiros. Além disso, a legenda da foto nº 11 da perícia de local informa: “Na bolsa em tela (que poderá ser vista na inclusa Fotografia nº 1, obtida no local em que se achava o cadáver) foi encontrada a cédula de identidade nº 79028/4166”. Ou seja, Anatália, presa, incomunicável, teria consigo sua carteira de identidade.

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A imprensa de plantão da Secretaria de Segurança, onde funcionava a DSS no 1º andar, foi chamada para ouvir a versão oficial. O Diário de Pernambuco de 23 de janeiro de 1973 traz uma foto da bolsa e de sua alça, com o título “Subversiva suicida-se com alça da bolsa no banheiro”.

A versão de suicídio não convenceu os presos políticos da época. As queimaduras, inexplicadas, levaram-nos à suspeitar de que Anatália teria sido vítima de violências sexuais quando se encontrava psicologicamente abalada pelas torturas e pelo clima de terror nos cárceres de Pernambuco. Sua morte e as queimaduras na região pubiana seriam uma forma de impedir que ela denunciasse os responsáveis pelas sevícias.(http://www.dhnet.org.br/)

Em 2015, a Comissão da Memória e Verdade de Pernambuco conseguiu a retifica da certidão de obito onde consta que Anatália foi, na verdade, assassinada. Após a Comissão localizar o antigo atestado de óbito, com fotos anexas, um novo laudo pericial foi solicitado. O novo documento do Instituto de Criminalística, assinado pelo perito Dr. José Zito Albino Pimentel e datado de 5 de dezembro de 2012, relata o caso como homicídio.

“Agora podemos provar que a farsa era farsa”, desabafou o viúvo, Luiz Alves Neto, ao receber a retificação do atestado de óbito de Anatália, vítima da ditadura, e realizará o enterro simbólico do corpo.

 

Antônio Alves Dias

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Antônio Alves Dias nasce em 10 de junho de 1936, em Limoeiro, Pernambuco. Vem para Recife, onde fez o concurso para seleção de Aprendizes Marinheiros em 1952, desistindo pouco depois de aprovado. Passado um ano, prestou novo concurso na Marinha, para fuzileiro naval, sendo admitido nesse mesmo ano. Recebeu farda no dia 24 de agosto de 1954 (dia do suicídio de Getúlio Vargas), e naquela noite, foi colocado de vigia no portão principal do quartel de Fuzileiros Navais (atual Capitania dos Portos), com uma metralhadora de tripé, com a ordem expressa de “abrir fogo em quem tentar entrar”.
Durante o período em que está na Marinha, vai estudar no Colégio Dom Vital, em Casa Amarela, onde organiza um Diretório Acadêmico nessa escola, em companhia de Jarbas de Holanda, Clóvis Assunção de Melo e Antônio Avertano Rocha, e percorrendo outras escolas convidando os alunos a se organizarem. A direção do Dom Vital o expulsa por conta dessa atividade. Com apoio do professor Carlos Amorim, consegue vaga, para continuar os estudos, no Carneiro Leão.
Começa a trabalhar no Banco do Povo, como ascensorista, e, por participar de uma greve, é demitido. Trabalha ainda em outro banco, de onde também é demitido por envolvimento em questões trabalhista e políticas. O professor Paschoal Carlos Magno indica-o para a SUDENE, onde é aprovado em teste, como desenhista.
Por volta de 1962 começa a frequentar a casa do deputado federal Francisco Julião, para “comer o boião”, como dizia o bem humorado Clóvis Assunção de Melo, onde ambos participavam de reuniões. Conhece, atravez de Clóvis Assunção de Melo, um dos diretores da SUDENE, o engenheiro mineiro Juares de Brito, um líderes do movimento da Liga Camponesa.

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Começa a cumprir missões para a Liga Camponesa. Guardou, em sua residência, no Beco das Lágrimas, dentro de um colchão, o dinheiro para pagamento do transporte dos camponeses que virião ao comício de Francisco Julião. Foi ainda encarregado de ser o guarda-costas de Julião, no comício do Beco do Quiabo, nas proximidades da Fábrica da Macaxeira, e no largo da feira de Casa Amarela, escondendo sob uma capa de chuva, uma submetralhadora INA.
Encarregado de aprender o básico em medicina, percorre o bairro de Água Fria, acompanhando o médico Brivaldo, juntando diversos medicamentos para a missão em Dianópolis, Goiás.
Partem de Recife, num Jeep, Antônio Alves Dias, o comandante Luís de Carvalho (de codinome Palmeira e Capivara), Cleto Campelo (estudante universitário) e Adauto Monteiro da Silva. Saem de Pernambuco, percorrem o Piauí, rumo à Dianópolis. No dia em que lá chegam, o acampamento é atacado pelas Forças Armadas, e os quatro membros do grupo, Antônio Alves Dias, o comandante Luís de Carvalho, Cleto Campelo e José Meireles, empreendem fuga para Barreiras, na Bahia, onde o grupo dispersa.
Preso em 1969, após três encontros com Ricardo Zaratini e com Luís de Carvalho. Nas instalações do DOPS, na rua da Aurora, foi torturado pelo delegado Moacir Salles de Araujo.
Em 1973, o Cabo Anselmo, usando o nome de Jadiel, frequentou a sua residência, acompanhado de Soledad Barrett Viedma, e infiltrado num dos grupos guerrilheiros que nesse período estava em Recife. Após o “Massacre do Sítio São Bento” Cabo Anselmo/Jadiel desapareceu sem deixar rastro.

(Texto escrito pelo filho, o historiador Alexandre Alves Dias)

Deus e o Diabo na terra do sol

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1966

” Estive aqui folheando lentamente o teu livro Do modernismo à bossa-nova e lhe asseguro que vou ler com o maior interesse, porque já vi que você fez um estudo inteligentíssimo sobre nossa Cultura! E sobretudo porque descobri, num relance, que os autores citados por você, revistos e essencializados! Dão mesmo uma Visão brasileira, complexa, contraditoriamente subdesenvolvida – e tudo assim continua depois do Golpe, quando nós nos vimos traídos, quando não sabemos bem quem e como surgiu esta nova época, quando a outra era tão promissora. O quanto aprendemos, eis o vero. Sua carta, suas notícias, tudo isto é muito bom; preocupei-me muito contigo, não sabia onde estavas e só agora soube da prisão (Jomard foi preso com a equipe do professor Paulo Freire em 1964) e que outra vez estavas livre e trabalhando; foi tão estranho nosso último encontro, você ficou num grande silêncio realmente, a minha casa desmontada, tive a impressão que tínhamos envelhecido e que, pelo menos eu, já estava sofrendo da antonionesca moléstia da incomunicabilidade.

Depois da sua visita eu viajei com Deus e o Diabo, veio a queda de Jango, eu voltei com tudo mudado e as pessoas dispersas, desmoralizadas, tristes. E eu fui acometido da mais brutal crise de toda minha vida: no momento em que assumi uma profunda visão dos problemas políticos acumulei uma total desilusão sobre os sentimentos – e uma coisa ficando na dependência da outra me levou a tamanha fossa, como se diz na ipanêmica gíria, que pensei em emigrar até para Hollywood, até pensei em me demitir da terra e dos ofícios e lhe confesso que não estou ainda bastante curado – ando cheio de decepções, de muitas dívidas, de um cinema ingrato, de tudo na estaca zero depois de tantos anos de luta, de Paloma crescendo sem ter direito onde morar, de minha mãe cada vez mais nervosa, da loucura que domina o asfalto, do individualismo hipócrita coletivo do carioca, da vigarice intelectual, da parada no sucesso das letras e artes, do esquerdismo visceral e bossal, do direitismo monstruoso e corrupto, das migalhas comunistas que muitos comeram sem saber o por quê, da confusão tão primária entre alienação e participação e da miséria de não ter dinheiro, de ter de resistir para não se negar, de ter que ir levando, pensando e sofrendo e a cada instante querendo morrer e ser assaltado pela esperança, pelos deveres, pelos processos e pela responsabilidade!

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Posso lhe dizer que nada mais lhe digo além disso: que tua carta me emocionou e a única coisa boa deste filme é sair na hora e vingar as pessoas e responder à brutalidade – mas o povo não entende, o povo vaia e apedreja, e eu fiz para o povo – imagine que mito besta é o povo. A gente envelhece, caríssimo, descobrindo-se amargo e querendo a mesma paz da paz do mineiro Drummond, e quer emigrar para a Flórida ou para as ruínas de Roma, ficar tomando sol e ganhando dinheiro fácil. O que vai por aí neste distante Pernambuco do Recife? Como agüentas a província brutalizada, a lama do subdesenvolvimento, o feijão, o angu, as velhas lotações, as estradas sujas, as ruas esburacadas, as moças sonhadoramente ansiosas na longínqua maquillage, a brutalidade adolescente dos rapazes, os velhos latifundiários, o arrivismo, os jovens poetas sinceramente dispostos a tudo salvar?

Ah, meu querido, como tens mais resistência do que eu, tens a divina paciência para o magistério, a calma sacerdotal dos justos e dos puros! – eu não suportaria ver os tanques, as bandeiras, as flores pátrias, nada. Como você vê, estou amargo e gongórico. Aqui te deixo, espero uma carta sua, que poderei responder ou não brevemente. Mas escreve falando de você e de sua vida. Um abraço fraternal do seu amigo.

Glauber ”

(Carta de Glauber Rocha para Jomard Muniz de Britto, escrita em 1966)

 

 

Até quarta, Isabela!

 

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“Isabela,

Esta é uma carta de amor, somente de amor, que te escrevo do cárcere, na esperança de que um dia, daqui a dez anos, já possas lê-la e entende-la no seu conjunto e em cada uma de suas partes.

E´ uma carta longa, como nenhum pai escreveu jamais a uma filha que tem, como tu, dois meses de idade.

Nela não encontrarás uma só gota de ódio ou de amargura. È uma carta de amor, somente de amor – quero repetir com ênfase, dizer bem alto -, desse amor todo feito de oferta e renúncia, de dádiva e humildade.

È com este amor que te escrevo, como foi este amor que te fez e este mesmo amor que me trouxe ao cárcere.

Deverias ter nascido no Recife. Poderias ter nascido em uma embaixada. Ou no México. Ou na Iugoslávia. Ou na Bulgária. Mas nasceste em Brasília, no último dia do mês de maio de 1964.

Dois dias depois, um mensageiro levou a notícia. Foi ao cair da tarde, de uma imensa tarde como as de Brasília, que custam a morrer.

Ali, onde Minas, Bahia e Goiás se encontram e se separam, fui esperar-te, sabendo que tu eras a vida que se renova, o canto que não acaba, o pássaro que alça voo, a esperança que retorna.

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No outro dia, três, pela madrugada, quinze homens, armados de metralhadoras e granadas de mão, cercaram a choupana e me levaram sob o olhar sinceramente triste – mais triste que espantado – dos cincos companheiros que lá permaneceram.

Percorremos muitos quilômetros a pé. Nada mais vi. Tudo era névoa. Névoa da manhã ao longo do Bauzinho que já se perdia na distância. Névoa na imensa várzea. Névoa nos meus olhos.

“A madrugada nunca encontra os homens onde o crepúsculo os deixou”.

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Ao deixar pela última vez a Casa do Congresso, vi diante dela os tanques que vieram “garantir” o seu funcionamento e assegurar a tranquila “eleição” do novo Presidente, um marechal do Exército.

Naquela mesma noite em que meu quarteirão foi cercado, vesti-me de candango e parti com a madrugada. Com as botinas de um, a roupa de outro, o chapéu de um terceiro. […] Só esperei pela primeira leva de candangos. Misturei-me a eles, tomei o rumo do aeroporto e, em seguida, o da BR-6. Levava comigo uma saudade e uma imensa vontade de viver.

Por ti. Por Eneida. Pelos teus irmãos. Pelos meus. Pelos humildes. Pela Pátria.

Bastaria um só desses motivos para eu ficar no Brasil, mas foi por todos eles que fiquei. Sem uma gota de ódio, de arrependimento ou de amargura. Foi o amor o que me reteve. Porque é ele – e somente ele – que me faz viver, que me guia os passos, que me trouxe ao cárcere.

Era o dia 8 de abril de 1964.”

(Trechos do livro “Até quarta, Isabela!” de Francisco Julião)

Elzita e Fernando Santa Cruz

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São inúmeras as famílias que até hoje sofrem a ausência de seus parentes. Mães choram o desaparecimento de seus filhos sem terem sequer um túmulo onde depositar suas homenagens. Dona Elzita Santa Cruz, mãe de Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira, desaparecido político, é uma delas. Fernando tinha 26 anos quando desapareceu, num sábado, ao sair da casa de parentes, no Rio de Janeiro, para se encontrar com seu camarada de organização política Eduardo Collier Filho. Ambos militavam na Ação Popular Marxista-Leninista.

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Nascida em 14 de outubro de 1913, dona Elzita transformou-se num exemplo de coragem e perseverança na busca da verdadeira história por trás do sumiço de Fernando e pelo direito de enterrá-lo dignamente.

Inúmeras cartas foram escritas por dona Elzita para todas as autoridades brasileiras. O caso ganhou repercussão depois do pronunciamento, em abril de 1974, do senador Franco Montoro, do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) de São Paulo, a respeito das prisões ilegais que aconteciam na época. O governo foi pressionado a dar explicações sobre os desaparecimentos, e a notícia correu o mundo em publicações como as do periódico francês Le Monde e do jornal The New York Times, dos Estados Unidos. Até hoje, porém, o caso não foi solucionado.

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“É justo, é humano, é cristão que um órgão de segurança encarcere, depois de sequestrar, um jovem que trabalhava e estudava, sem que à sua família seja dada qualquer informação sobre o seu paradeiro e as acusações que lhe são imputadas?”, escreveu dona Elzita em carta ao marechal Juarez Távora, datada de 21 de maio de 1974. Na mesma epístola, dona Elzita, angustiada, pergunta ao marechal: “Meu querido filho também é esposo e pai. Que direi ao meu neto quando jovem se fizer e quando me indagar que fim levou o seu pai, se ele não tiver a felicidade de seu regresso? Direi que foi executado sem julgamento? Sem defesa? Às escondidas, por crime que não cometeu?”.

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Hoje, aos 102 anos de idade, Dona Elzita ainda se emociona ao falar do desaparecimento de Fernando, mas não perdeu a garra para buscar a verdade e lutar pela justiça. Junto com Elzita Santa Cruz e com tantas outras mães, irmãos, filhos e companheiros de desaparecidos e mortos da Ditadura Militar instalada em 1° de abril de 1964, nós repetimos: “Pelo direito à memória, à verdade e à justiça! Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça!”.

(Texto organizado a partir da matéria de Ludmila Outtes e Thiago Santos, publicada no site http://averdade.org.br/)

Odijas Carvalho de Souza

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Nascido em Alagoas, no ano de 1945, o estudante de agronomia da Universidade Federal Rural de Pernambuco, Odijas Carvalho de Souza combateu contra a ditadura militar através do movimento estudantil. Militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), foi preso na Praia de Maria Farinha, no município de Paulista, em Pernambuco, as 6.30 do dia 30 de janeiro de 1971, juntamente com Lélia Guedes, quando estava saindo para correr na praia.

Os policiais responsáveis por sua prisão são: Edmundo de Brito, Fausto Venâncio da Silva Filho, Ivaldo Nicodemus Vieira e Severino Pereira da Silva, todos do DOPS/PE. Odijas bravamente resistiu às seções de tortura e muito convicto do seu objetivo, acabar com a ditadura militar, não entregou uma informação sequer aos agentes da repressão.

Após esse período, foi levado às pressas para o Hospital da Polícia Militar de Pernambuco no dia 6 de fevereiro de 1971, morrendo dois dias depois em consequência das torturas sofridas.

Uma semana inteira de seções de tortura não foram capazes de romper com a firmeza desse jovem estudante que sonhava com um mundo sem opressões e injustiças. O assassinato foi denunciado a partir de testemunhos em depoimentos prestados na Auditoria de Guerra da 7ª Região Militar, por vários presos políticos, inclusive sua viúva, Maria Ivone de Souza Loureiro.

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O preso político Mário Miranda, uma das testemunhas oculares do assassinato, denunciou as torturas que culminaram com a morte de Odijas e também seus assassinos: delegado José Silvestre, do DOPS/PE, os agentes Ivanildo Nemésio e Miranda e o delegado Carlos Brito. O atestado de óbito, fornecido pelo IML/PE, foi assinado por Dr. Ednaldo Paz de Vasconcelos e tinha como causa-mortis embolia pulmonar. Mas na realidade, Odijas apresentava várias fraturas de ossos, ruptura de rins, baço e fígado. Foi enterrado no Cemitério de Santo Amaro, em Recife, sob o nome de Osias de Carvalho Souza, e não Odijas, o que dificultou a localização de seu corpo. (http://www.documentosrevelados.com.br/)

No dia 15 de outubro de 2013, foi anunciada pela Comissão Estadual de Memória e Verdade de Pernambuco a retifica do atestado de óbito de Odijas para conter as reais causas de sua morte, de “embolia pulmonar” (ou seja, morte por causa natural assinada pelo médico Ednaldo Paes Vasconcelos) para “homicídio por lesões corporais múltiplas decorrentes de atos de tortura”.