Até quarta, Isabela!

 

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“Isabela,

Esta é uma carta de amor, somente de amor, que te escrevo do cárcere, na esperança de que um dia, daqui a dez anos, já possas lê-la e entende-la no seu conjunto e em cada uma de suas partes.

E´ uma carta longa, como nenhum pai escreveu jamais a uma filha que tem, como tu, dois meses de idade.

Nela não encontrarás uma só gota de ódio ou de amargura. È uma carta de amor, somente de amor – quero repetir com ênfase, dizer bem alto -, desse amor todo feito de oferta e renúncia, de dádiva e humildade.

È com este amor que te escrevo, como foi este amor que te fez e este mesmo amor que me trouxe ao cárcere.

Deverias ter nascido no Recife. Poderias ter nascido em uma embaixada. Ou no México. Ou na Iugoslávia. Ou na Bulgária. Mas nasceste em Brasília, no último dia do mês de maio de 1964.

Dois dias depois, um mensageiro levou a notícia. Foi ao cair da tarde, de uma imensa tarde como as de Brasília, que custam a morrer.

Ali, onde Minas, Bahia e Goiás se encontram e se separam, fui esperar-te, sabendo que tu eras a vida que se renova, o canto que não acaba, o pássaro que alça voo, a esperança que retorna.

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No outro dia, três, pela madrugada, quinze homens, armados de metralhadoras e granadas de mão, cercaram a choupana e me levaram sob o olhar sinceramente triste – mais triste que espantado – dos cincos companheiros que lá permaneceram.

Percorremos muitos quilômetros a pé. Nada mais vi. Tudo era névoa. Névoa da manhã ao longo do Bauzinho que já se perdia na distância. Névoa na imensa várzea. Névoa nos meus olhos.

“A madrugada nunca encontra os homens onde o crepúsculo os deixou”.

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Ao deixar pela última vez a Casa do Congresso, vi diante dela os tanques que vieram “garantir” o seu funcionamento e assegurar a tranquila “eleição” do novo Presidente, um marechal do Exército.

Naquela mesma noite em que meu quarteirão foi cercado, vesti-me de candango e parti com a madrugada. Com as botinas de um, a roupa de outro, o chapéu de um terceiro. […] Só esperei pela primeira leva de candangos. Misturei-me a eles, tomei o rumo do aeroporto e, em seguida, o da BR-6. Levava comigo uma saudade e uma imensa vontade de viver.

Por ti. Por Eneida. Pelos teus irmãos. Pelos meus. Pelos humildes. Pela Pátria.

Bastaria um só desses motivos para eu ficar no Brasil, mas foi por todos eles que fiquei. Sem uma gota de ódio, de arrependimento ou de amargura. Foi o amor o que me reteve. Porque é ele – e somente ele – que me faz viver, que me guia os passos, que me trouxe ao cárcere.

Era o dia 8 de abril de 1964.”

(Trechos do livro “Até quarta, Isabela!” de Francisco Julião)

Elzita e Fernando Santa Cruz

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São inúmeras as famílias que até hoje sofrem a ausência de seus parentes. Mães choram o desaparecimento de seus filhos sem terem sequer um túmulo onde depositar suas homenagens. Dona Elzita Santa Cruz, mãe de Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira, desaparecido político, é uma delas. Fernando tinha 26 anos quando desapareceu, num sábado, ao sair da casa de parentes, no Rio de Janeiro, para se encontrar com seu camarada de organização política Eduardo Collier Filho. Ambos militavam na Ação Popular Marxista-Leninista.

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Nascida em 14 de outubro de 1913, dona Elzita transformou-se num exemplo de coragem e perseverança na busca da verdadeira história por trás do sumiço de Fernando e pelo direito de enterrá-lo dignamente.

Inúmeras cartas foram escritas por dona Elzita para todas as autoridades brasileiras. O caso ganhou repercussão depois do pronunciamento, em abril de 1974, do senador Franco Montoro, do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) de São Paulo, a respeito das prisões ilegais que aconteciam na época. O governo foi pressionado a dar explicações sobre os desaparecimentos, e a notícia correu o mundo em publicações como as do periódico francês Le Monde e do jornal The New York Times, dos Estados Unidos. Até hoje, porém, o caso não foi solucionado.

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“É justo, é humano, é cristão que um órgão de segurança encarcere, depois de sequestrar, um jovem que trabalhava e estudava, sem que à sua família seja dada qualquer informação sobre o seu paradeiro e as acusações que lhe são imputadas?”, escreveu dona Elzita em carta ao marechal Juarez Távora, datada de 21 de maio de 1974. Na mesma epístola, dona Elzita, angustiada, pergunta ao marechal: “Meu querido filho também é esposo e pai. Que direi ao meu neto quando jovem se fizer e quando me indagar que fim levou o seu pai, se ele não tiver a felicidade de seu regresso? Direi que foi executado sem julgamento? Sem defesa? Às escondidas, por crime que não cometeu?”.

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Hoje, aos 102 anos de idade, Dona Elzita ainda se emociona ao falar do desaparecimento de Fernando, mas não perdeu a garra para buscar a verdade e lutar pela justiça. Junto com Elzita Santa Cruz e com tantas outras mães, irmãos, filhos e companheiros de desaparecidos e mortos da Ditadura Militar instalada em 1° de abril de 1964, nós repetimos: “Pelo direito à memória, à verdade e à justiça! Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça!”.

(Texto organizado a partir da matéria de Ludmila Outtes e Thiago Santos, publicada no site http://averdade.org.br/)

Odijas Carvalho de Souza

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Nascido em Alagoas, no ano de 1945, o estudante de agronomia da Universidade Federal Rural de Pernambuco, Odijas Carvalho de Souza combateu contra a ditadura militar através do movimento estudantil. Militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), foi preso na Praia de Maria Farinha, no município de Paulista, em Pernambuco, as 6.30 do dia 30 de janeiro de 1971, juntamente com Lélia Guedes, quando estava saindo para correr na praia.

Os policiais responsáveis por sua prisão são: Edmundo de Brito, Fausto Venâncio da Silva Filho, Ivaldo Nicodemus Vieira e Severino Pereira da Silva, todos do DOPS/PE. Odijas bravamente resistiu às seções de tortura e muito convicto do seu objetivo, acabar com a ditadura militar, não entregou uma informação sequer aos agentes da repressão.

Após esse período, foi levado às pressas para o Hospital da Polícia Militar de Pernambuco no dia 6 de fevereiro de 1971, morrendo dois dias depois em consequência das torturas sofridas.

Uma semana inteira de seções de tortura não foram capazes de romper com a firmeza desse jovem estudante que sonhava com um mundo sem opressões e injustiças. O assassinato foi denunciado a partir de testemunhos em depoimentos prestados na Auditoria de Guerra da 7ª Região Militar, por vários presos políticos, inclusive sua viúva, Maria Ivone de Souza Loureiro.

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O preso político Mário Miranda, uma das testemunhas oculares do assassinato, denunciou as torturas que culminaram com a morte de Odijas e também seus assassinos: delegado José Silvestre, do DOPS/PE, os agentes Ivanildo Nemésio e Miranda e o delegado Carlos Brito. O atestado de óbito, fornecido pelo IML/PE, foi assinado por Dr. Ednaldo Paz de Vasconcelos e tinha como causa-mortis embolia pulmonar. Mas na realidade, Odijas apresentava várias fraturas de ossos, ruptura de rins, baço e fígado. Foi enterrado no Cemitério de Santo Amaro, em Recife, sob o nome de Osias de Carvalho Souza, e não Odijas, o que dificultou a localização de seu corpo. (http://www.documentosrevelados.com.br/)

No dia 15 de outubro de 2013, foi anunciada pela Comissão Estadual de Memória e Verdade de Pernambuco a retifica do atestado de óbito de Odijas para conter as reais causas de sua morte, de “embolia pulmonar” (ou seja, morte por causa natural assinada pelo médico Ednaldo Paes Vasconcelos) para “homicídio por lesões corporais múltiplas decorrentes de atos de tortura”.

Sylvia Montarroyos

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“Fui presa em casa junto com meus irmãos e meu namorado na época, que era uruguaio. Fugi depois não por fugir, mas por causa do uruguaio que estava irregular no Brasil e não teria como comprovar ao país que estava aqui”. “Quando chegávamos na delegacia, uma equipe de televisão estava filmando e o delegado disse que eu tinha cara de anjo mas que era diabólica, eu cuspi na cara dele e lá dentro fui queimada, espancada”.

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“Eu jamais cheguei a dizer alguma coisa, denunciar meus companheiros e, por isso, eles me prenderam numa jaula dentro do quartel de Tejipió durante 30 dias, 15 num subterrâneo escuro e 15 na floresta do quartel, ao relento, nua e sendo alimentada com meio pão e meio copo de água. Cheguei a pesar 23 kg devido a essas torturas.”

Sylvia Montarroyos, primeira mulher torturada em cárceres do regime militar, presa por pertencer ao movimento de resistência, Partido operário revolucionário trotskista- PORT.

“Não existe explicação lógica para o que sofri. Os médicos dizem que é um milagre eu estar viva”.

(Trechos do depoimento prestado a Comissão Estadual de Memória e Verdade de Pernambuco).

Gregório Bezerra, presente!

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” Com o golpe militar de 1º de abril de 1964, fui preso quando procurava mobilizar a massa camponesa pernambucana para defender a permanência, no governo, do Dr. Miguel Arraes de Alencar e resistir ao movimento insurrecional. Estava em Palmares e fui levado ao Parque de Moto Mecanização, em Casa Forte e espancado, pessoalmente, pelo coronel do Exército Darcy Ursmar Villocq, a cano de ferro, no que este ajudado por três ou quatro sargentos. Fui, também, amarrado e arrastado pelo pescoço, pelas ruas do Recife, num espetáculo de puro nazismo que horrorizou a toda gente. Hoje me encontro recolhido à Casa de Detenção do Recife, onde escrevo estas notas, aguardando o meu julgamento, pelo Conselho de Justiça Militar da 7ª Região. Estou tranquilo, porque ao meu lado está todo o povo brasileiro, o proletariado, as massas camponesas, os intelectuais. Não temo o futuro. Espero o dia em que serei libertado, que acredito próximo, se o povo souber unir-se para derrotar a ditadura que aí está. Então estarei outra vez, nas ruas, ao lado do meu povo, para lutar pela libertação nacional, do jugo de nossa Pátria pelos imperialistas norte-americanos, pelo progresso do Brasil, contra o atraso e pelo bem-estar de todo o povo brasileiro.”

” Esta é a minha única aspiração.”

 

GREGÓRIO BEZERRA, “Eu, Gregório Bezerra, Acuso!”, 1967.

O dia da mentira.

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O senhor não tem autoridade para me depor sou escolhido pelo povo. Não preciso de suas garantias, sou o governador de Pernambuco e assumirei o governo de Pernambuco esteja eu onde estiver“.

Arraes fechou a porta do palácio e deixou o coronel a ver navios.

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Há exatos 52 anos, o então governador de Pernambuco Miguel Arraes, era destituído do comando do governo do estado em virtude do golpe de estado de 1964.

O Palácio do Campo das Princesas chegou a ficar sob a mira de canhões estacionados no Cais do Apolo, no Recife Antigo, e na Rua da Aurora, no Centro.

No dia 31 de março, Arraes conversou com o presidente João Goulart, que relatou as dificuldades encontradas pelo governo federal, além da situação política em Minas Gerais. No mesmo dia, o governador que seria deposto enviou uma nota oficial aos jornais do estado garantido que a situação no estado estava “tranquila”. Arraes, no texto, também defendia a democracia e a legalidade. O discurso, porém, não estava de acordo com a realidade. O golpe já era quase um fato consumado.

Miguel Arraes também escreveu e enviou um manifesto aos demais governadores da região Nordeste. No documento, ele pedia que todos resistissem à quebra de legalidade e que apoiassem o presidente deposto João Goulart. O apelo não encontrou ressonância. Na noite do dia 31 de março, como o golpe de estado era um fato iminente, o governador decidiu não dormir no palácio.

O dia 1º de abril iniciou em conversas com assessores e sua mulher, a então primeira-dama Magdalena Arraes, que tentou manter a rotina dos filhos, inclusive, indo normalmente à escola. Os tanques do Exército já apontavam para o Palácio do Campo das Princesas. A primeira-dama começou a arrumar as malas das crianças para que elas fossem passar alguns dias na casa de uma das avós. Os filhos do casal foram orientados a não voltar ao palácio depois da aula.

Uma passeata foi organizada no Recife por estudantes em defesa da legalidade, mas o movimento foi sufocado pelo Exército. Os estudantes Ivan Rocha e Jonas Albuquerque foram atingidos à bala e morreram. Três pessoas ficaram feridas.

À noite, os militares voltam ao palácio para prender o governador. Antes da ordem de prisão levada pelo coronel Dutra de Castilho, Miguel Arraes gravou uma mensagem aos pernambucanos, que deveria ser distribuída em rádios do estado. A mensagem não pôde ser compartilha porque as rádios já estavam ocupadas pelos militares.

“O mal trazido ao Brasil pela ditadura foi a falta de informação da população, a manipulação do ensino, aquilo que foi jogado na cabeça das pessoas. Além disso, o silêncio sobre as lutas do povo, que não eram ensinadas aos jovens. A geração que nasceu por volta do ano de 64 não entende a formação de quem se formou antes, daqueles que desde muito cedo foram ensinados conhecendo os problemas brasileiros, os problemas da nossa população. Acho que esse é o prejuízo principal, e acho que a arma principal que está sendo utilizada – disse isso há muito tempo – para substituir as metralhadoras dos militares é a câmera da televisão”. MIGUEL ARRAES, 2004.

(Textos organizados a partir da matéria publicada no Diário de Pernambuco, para os 50
anos do golpe, por Andrea Pinheiro e Tercio Amaral)