Sobre

Em 2011, o Ministério da Justiça, por meio da Comissão da Anistia, iniciou o projeto Marcas da Memória – História Oral da Anistia no Brasil. Realizado em parceria com as Universidades Federais de Pernambuco, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, o projeto entrevistou cerca de 100 pessoas vítimas de perseguição política, prisão e tortura durante a ditadura civil-militar instaurada no Brasil após o golpe de 1964.

Para o caso de Pernambuco, o projeto foi coordenado pela UFPE, onde foram entrevistadas 41 pessoas, sendo 9 mulheres e 32 homens, dos estados de Pernambuco, Alagoas e Piauí, entre militantes de partidos, movimentos sociais, como as Ligas Camponesas, integrando, em grande medida, os grupos que adotaram depois de 1968 a opção pela luta armada, o enfrentamento direto contra os governos militares.

Partindo desse material existente, o fotografo Diego Di Niglio, com a parceria da UFPE pelos conteúdos histórico-políticos, está realizando um projeto de pesquisa fotográfica autoral objetivando produzir um registro de retratos/ensaios sobre pessoas atingidas pela repressão do governo militar, investigando com as imagens as histórias e universos particulares dos retratados.

P14311 é o número de matricula do militante comunista Gregório Bezerra no fichário do Departamento de Ordem Político e Social – DOPS de Recife, órgão do governo brasileiro, utilizado principalmente durante o Estado Novo e mais tarde no Regime Militar de 1964, cujo objetivo era controlar e reprimir movimentos políticos e sociais contrários ao regime no poder.
A narrativa visual que está sendo produzida baseia-se na construção de micro-historias, focando nas trajetórias particulares e ao mesmo tempo de valor coletivo dos retratados, sujeitos quem vivenciaram ativamente e em primeira pessoa a época.

Inspirado pelos conceitos estéticos e práticas do documentário imaginário, o desenvolvimento de um olhar autoral íntimo, direto, criativo, sem deixar de ser documental ao mesmo tempo, pretende provocar um processo de identificação do expectador com a história contada pelas memorias de seus personagens, pessoas comuns que, sem ser heróis, tiveram uma atuação social consciente em prol de ideais de democracia e liberdade, lutaram e sofreram várias vezes de forma cruel para estes ideais.

As micro-histórias virando assim representação direta de trajetórias coletivas do passado e do presente, proporcionam uma leitura crítica dos processos políticos e culturais relacionados ao período, se debruçando sobre o reflexo de um dos maiores traumas históricos-coletivos da sociedade brasileira do século passado.
O meio fotográfico, sem deixar de ser registro do real, é utilizado para reconstruir lembranças e sentimentos, onde a memória representa uma junção dos fatos com a emoção e a impressão do que se passou.

Não trata-se de uma reconstrução histórica, mas do que hoje ainda está presente no imaginário destas pessoas e da sociedade. Marcas materializadas em imagens, sons, relatos, silêncios, lugares, documentos, objetos, lembranças e sentimentos. Marcas que ainda estão frescas, no inconsciente coletivo, e são traumas latentes. Fantasmas que ainda habitam as casas. E que, em muitos casos, ainda não encontraram justiça e reparação por conta do Estado e da sociedade.

 

English

 

About the project

In 2011, the Brazilian Ministry of Justice, through its Amnesty Commission, started the project Marks of Memory – Oral History of Amnesty in Brazil. Developed in partnership with the Federal Universities of Pernambuco, Rio de Janeiro, and Rio Grande do Sul, the project interviewed around 100 victims of political persecution, imprisonment, and torture under the civilian-military dictatorship established in Brazil following the 1964 coup.
The Federal University of Pernambuco (UFPE) coordinated the project in its state, where 41 people (9 females, 32 males) from the states of Pernambuco, Alagoas, and Piauí were interviewed. All of them were militants of political parties and social movements, such as Ligas Camponesas (Farmer Association), and, in their majority, members of groups that, after 1968, made an option for armed struggle, direct confrontation with the military rulers.
Based on this existing material, photographer Diego Di Niglio, in partnership with UFPE for the historical-political content, is conducting an authorial photographic research project aimed at generating a register of portraits of/essays on people subjected to repression by the military government and investigating their stories and private universes through images.
P14311 is the number under which Gregório Bezerra, a communist militant, is registered in the local Recife (Pernambuco capital city) political police (DOPS – Departamento de Ordem Política e Social) archives. DOPS is a Brazilian government agency active mainly during the Vargas “New State” rule (1947-1945) and the 1964 military regime to control and repress opposition political and social movements.
The visual narrative being produced is based on the construction of micro-stories focusing trajectories that are personal and, at the same time, have collective value to those portrayed, who experienced those times actively and personally.
Inspired by the aesthetic concepts and practices of imaginary documentary, the author develops an intimate, direct, creative authorial outlook that remains, at the same time, documentary. This work aims at eliciting identification of the spectator with stories told by characters’ memories. These are regular people, not heroes, who were social activists for democracy and freedom and repeatedly and cruelly struggled and suffered for these ideals.
Thus, these micro-stories become a direct representation of collective trajectories of the past and the present that enables a critical reading of political and cultural processes associated with that period and looks into the echoes of one of the major historic traumas Brazilian society experienced in the last century.
While photography is a means to record reality, it is also used to reconstruct recollections and feelings, process in which memory is the locus where facts are combined with emotion and impressions of what happened.
This is not about historical reconstruction, but rather about what is still alive today in those people’s and society’s imaginary. These marks materialize into images, sounds, narratives, silences, places, documents, objects, memories, and feelings – marks that are still fresh in the collective unconscious, latent traumas. Ghosts that still inhabit houses and that, in many cases, have not yet obtained justice and atonement from the State and the society.

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